Por que profissionais da saúde mental têm buscado mais preparo para atuar com segurança em casos complexos
A saúde mental contemporânea atravessa um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas.
Nos consultórios, clínicas, hospitais e instituições de saúde, profissionais relatam um aumento significativo de pacientes emocionalmente exaustos, atravessados por desesperança persistente, autolesão, sofrimento existencial profundo e comportamento suicida.
Ao mesmo tempo, cresce silenciosamente uma outra realidade dentro da prática clínica: a insegurança de muitos profissionais diante da complexidade desses casos.
Não por falta de empatia.
Nem por ausência de comprometimento.
Mas porque o sofrimento psíquico atual exige um nível de preparo técnico, emocional e estratégico muito maior do que normalmente é aprofundado na formação tradicional.
A crescente busca por especialização em Suicidologia e Terapia Comportamental Dialética (DBT) reflete justamente essa transformação da clínica contemporânea.
Para compreender melhor esse cenário, a equipe do Blog BuscaMed conversou com a Gésica Borges Bergamini (CRP 06/205908), psicóloga, Mestra em Psicologia e especialista em Neuropsicologia Clínica, Neurociências, Psicopedagogia, Terapia Cognitivo-Comportamental, ACT, Tanatologia, intervenção em automutilação, prevenção e posvenção do suicídio, Psicoterapia Assistida por Psicodélicos, além especialização em Terapia Comportamental Dialética – DBT e DBT PE.
Atualmente, Gésica também coordena a Especialização em Suicidologia e DBT, formação voltada para profissionais que desejam aprofundar manejo clínico, avaliação de risco, regulação emocional e atuação em casos complexos.
Na entrevista a seguir, ela fala sobre sofrimento psíquico contemporâneo, comportamento suicida, insegurança clínica e os desafios emocionais enfrentados diariamente por profissionais da saúde mental.
“Hoje muitos pacientes continuam funcionando socialmente enquanto vivem intenso sofrimento psíquico internamente”
Blog BuscaMed — O sofrimento emocional parece ter se tornado mais intenso nos últimos anos?
Gésica Borges Bergamini:
Sem dúvida. O sofrimento sempre existiu, mas hoje ele aparece de forma muito mais silenciosa, acumulada e profunda.
Muitas pessoas continuam funcionando externamente enquanto vivem internamente níveis altíssimos de desesperança, vazio emocional, exaustão psíquica e desconexão com a própria vida.
Esse talvez seja um dos maiores desafios atuais da prática clínica: o sofrimento nem sempre aparece de forma explícita.
Muitos pacientes trabalham, estudam, mantêm relações sociais e continuam aparentemente funcionais, mas emocionalmente já estão extremamente fragilizados.
E isso exige do profissional uma escuta muito mais refinada e um preparo muito maior para identificar sinais que nem sempre são óbvios.
Blog BuscaMed — Quais sinais costumam indicar sofrimento psíquico mais grave ou risco aumentado para comportamento suicida?
Gésica Borges Bergamini:
Existem alguns sinais importantes que merecem muita atenção clínica.
Entre eles estão isolamento social, desesperança persistente, mudanças abruptas de comportamento, verbalizações frequentes sobre morte, sensação constante de ser um peso para os outros, autolesão, oscilações intensas de humor, despedidas incomuns e sensação de vazio ou aprisionamento emocional.
Mas existe um ponto muito importante: o comportamento suicida raramente é simples ou linear.
Em muitos casos, o paciente não deseja exatamente a morte.
Ele deseja interromper um sofrimento que já não consegue mais sustentar emocionalmente.
E compreender essa diferença muda completamente a forma como o profissional conduz o caso.
“Casos complexos exigem mais do que empatia”
Blog BuscaMed — Muitos profissionais relatam insegurança ao lidar com pacientes em intenso sofrimento emocional. Por que isso acontece?
Gésica Borges Bergamini:
Porque casos complexos exigem muito mais do que acolhimento.
Empatia é fundamental. Escuta é indispensável. Mas existem situações clínicas que exigem avaliação estruturada, manejo técnico, raciocínio clínico e capacidade de sustentação emocional.
Muitos profissionais percebem, na prática, que a graduação nem sempre aprofunda suficientemente temas como comportamento suicida, autolesão, manejo de crises, sofrimento existencial e regulação emocional.
Então acabam aprendendo a lidar com situações extremamente delicadas já dentro da prática clínica — e isso naturalmente gera insegurança.
Existe uma diferença muito grande entre estudar teoria e sustentar sofrimento humano intenso dentro do consultório.
Blog BuscaMed — O impacto emocional desses atendimentos também afeta o terapeuta?
Gésica Borges Bergamini:
Muito. Esse é um tema extremamente importante e ainda pouco discutido.
Profissionais que lidam constantemente com pacientes em intenso sofrimento emocional frequentemente convivem com medo de errar, ansiedade clínica, sensação de insuficiência e desgaste emocional acumulado.
Porque sustentar casos complexos exige não apenas preparo técnico, mas também organização emocional interna.
Quando o profissional não possui estrutura clínica suficientemente sólida, ele tende a absorver mais emocionalmente o caso, sentir-se mais inseguro e até perder direção terapêutica em situações críticas.
Por isso, a formação especializada também funciona como fortalecimento clínico e emocional do próprio profissional.
“A DBT oferece algo que muitos profissionais procuram: estrutura”
Blog BuscaMed — Por que a DBT se tornou uma das abordagens mais importantes para manejo de casos complexos?
Gésica Borges Bergamini:
Porque a DBT oferece estrutura clínica.
Ela ajuda o profissional não apenas a compreender o sofrimento emocional, mas também a manejar esse sofrimento de forma organizada, prática e baseada em evidências.
A Terapia Comportamental Dialética trabalha validação emocional, regulação emocional, tolerância ao mal-estar, manejo de crises e construção de vida com sentido.
Isso faz muita diferença em pacientes com comportamento suicida, autolesão, impulsividade e sofrimento emocional crônico.
A DBT oferece direção terapêutica.
E direção clínica reduz insegurança profissional.
Blog BuscaMed — E por que integrar Suicidologia e DBT dentro de uma mesma formação?
Gésica Borges Bergamini:
Porque as duas áreas se complementam profundamente.
A suicidologia amplia a compreensão sobre sofrimento existencial, fatores de risco, comportamento suicida, prevenção e posvenção.
Já a DBT oferece ferramentas concretas de intervenção, manejo clínico e sustentação terapêutica.
Na prática, essa integração permite que o profissional consiga avaliar melhor, intervir com mais clareza e conduzir casos complexos com mais segurança e responsabilidade.
Hoje, muitos profissionais não procuram apenas conhecimento teórico.
Eles procuram preparo real para a clínica contemporânea.
“Boa intenção sozinha não sustenta casos complexos”
Blog BuscaMed — O que diferencia um profissional tecnicamente preparado hoje?
Gésica Borges Bergamini:
Capacidade de sustentação clínica.
Um profissional preparado consegue acolher o sofrimento sem perder direção terapêutica.
Consegue avaliar risco com mais clareza, manejar crises com mais estrutura e construir intervenções mais organizadas emocionalmente e tecnicamente.
Isso não significa tornar-se frio ou excessivamente técnico.
Significa justamente o contrário: conseguir oferecer um cuidado mais ético, mais seguro e mais responsável diante da complexidade humana.
Blog BuscaMed — Qual foi a principal motivação para estruturar a Especialização em Suicidologia e DBT?
Gésica Borges Bergamini:
A percepção muito clara de que os profissionais precisam de mais preparo para lidar com a realidade clínica atual.
A proposta da especialização é justamente unir profundidade técnica, aplicação prática e compreensão humana do sofrimento.
Existe um foco muito grande em manejo clínico, avaliação de risco, DBT aplicada, regulação emocional, prevenção e raciocínio clínico estruturado.
Porque quando falamos de sofrimento humano em alta intensidade, boa intenção sozinha não basta.
É preciso preparo.
E talvez uma das maiores responsabilidades de quem escolheu cuidar da saúde mental de outras pessoas… seja também escolher continuar se preparando para isso.
A importância do preparo diante do sofrimento humano
O avanço das discussões sobre suicidologia, regulação emocional e manejo clínico de casos complexos representa também um avanço na forma como a saúde mental tem sido compreendida.
Mais do que ampliar conhecimento técnico, formações especializadas buscam preparar profissionais para lidar, com mais responsabilidade e profundidade, com uma das dimensões mais delicadas da experiência humana: o sofrimento psíquico.
Em um cenário onde casos emocionalmente complexos se tornam cada vez mais frequentes, investir em preparo clínico deixou de ser apenas um diferencial profissional — tornou-se uma necessidade ética do cuidado em saúde mental.
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Ampliar o acesso à informação qualificada também faz parte da prevenção, do acolhimento e do fortalecimento da saúde mental.
Aviso importante
As informações apresentadas nesta matéria possuem caráter exclusivamente informativo e educacional, não substituindo avaliação, diagnóstico, acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou orientação médica profissional.
Em situações de sofrimento emocional intenso, crise psicológica ou risco à integridade física, é fundamental buscar ajuda especializada e suporte profissional adequado.