O vírus Zika representa um desafio significativo para a saúde pública global. Transmitido principalmente pelo mosquito Aedes aegypti, o Zika ganhou notoriedade mundial após surtos que revelaram suas graves consequências, especialmente para gestantes e seus bebês. Neste artigo completo, você encontrará informações essenciais sobre sintomas, diagnóstico, tratamento e estratégias eficazes de prevenção contra o vírus Zika.
O que é Zika e como é transmitido?
O Zika é uma arbovirose (doença viral transmitida por artrópodes) causada pelo vírus ZIKV. Originalmente descoberto na floresta de Zika, em Uganda, em 1947, o vírus permaneceu relativamente desconhecido até que grandes surtos tenham ocorrido nas Américas entre 2015 e 2016. Atualmente, a principal forma de transmissão ocorre por meio da picada do mosquito Aedes aegypti infectado, o mesmo vetor responsável pela dengue e chikungunya.
Principais formas de transmissão do vírus Zika:
- Picada do mosquito Aedes aegypti infectado (forma mais comum)
- Transmissão vertical (de mãe para filho durante a gestação)
- Transmissão sexual (através de relações sexuais desprotegidas)
- Transfusão sanguínea (casos raros, mas documentados)
O mosquito Aedes aegypti costuma picar principalmente durante o período diurno, com maior atividade no final da tarde. Após picar uma pessoa infectada, o mosquito pode transmitir o vírus a outras pessoas saudáveis, perpetuando o ciclo de infecção.
Sintomas de Zika: Como identificar a infecção
Aproximadamente 80% das pessoas infectadas pelo vírus Zika podem não apresentar sintomas, o que torna a infecção silenciosa e dificulta o diagnóstico precoce. Quando presentes, os sintomas geralmente aparecem entre 2 e 14 dias após a picada do mosquito infectado e costumam durar de 2 a 7 dias.
Principais sintomas de Zika em adultos:
- Febre baixa (geralmente abaixo de 38°C, podendo estar ausente)
- Exantema maculopapular (manchas vermelhas na pele) com prurido intenso
- Conjuntivite não purulenta (olhos vermelhos sem secreção)
- Dor nas articulações (artralgia), especialmente nas mãos e pés
- Edema periarticular (inchaço ao redor das articulações)
- Dor de cabeça (cefaleia)
- Dor muscular (mialgia)
- Fadiga e cansaço excessivo
O que diferencia o Zika de outras arboviroses, como dengue e chikungunya, é, sobretudo, a predominância do exantema maculopapular (manchas vermelhas na pele) e da conjuntivite não purulenta, os quais são considerados sintomas característicos da infecção por Zika.
Sintomas de Zika em bebês e crianças
Identificar a infecção por Zika em bebês e crianças pequenas pode ser desafiador, pois eles não conseguem verbalizar seus sintomas. Pais e cuidadores devem estar atentos aos seguintes sinais:
- Irritabilidade e choro excessivo
- Inquietação anormal
- Manchas vermelhas pelo corpo
- Febre, mesmo que baixa (acima de 37,5°C)
- Olhos vermelhos sem secreção
- Recusa alimentar
- Sonolência excessiva
Por isso, é fundamental procurar atendimento pediátrico imediatamente se uma criança apresentar estes sintomas, especialmente em áreas com circulação conhecida do vírus Zika.
Diagnóstico do Zika: Como confirmar a infecção

O diagnóstico preciso do Zika é, portanto, essencial para o manejo adequado da doença e para a implementação de medidas preventivas, especialmente em gestantes. Além disso, a confirmação diagnóstica envolve uma combinação de avaliação clínica e testes laboratoriais específicos.
Avaliação clínica
Para isso, o médico (infectologista, clínico geral ou pediatra) realizará:
- Análise detalhada dos sintomas apresentados
- Investigação de histórico de viagem para áreas endêmicas
- Verificação de possível exposição a mosquitos Aedes aegypti
- Exame físico completo, com atenção especial a sinais cutâneos e oculares
Exames laboratoriais para diagnóstico de Zika
- RT-PCR (Reação em Cadeia da Polimerase com Transcrição Reversa)
- Detecta material genético do vírus
- Mais eficaz nos primeiros 5-7 dias após o início dos sintomas
- Alta especificidade para confirmar a infecção ativa
- Sorologia para Zika (IgM e IgG)
- Detecta anticorpos produzidos pelo organismo contra o vírus
- IgM: detectável a partir do 4º-5º dia após o início dos sintomas
- IgG: surge posteriormente e permanece por meses ou anos
- Exames complementares
- Hemograma: Além disso, pode revelar leucopenia (diminuição de leucócitos) e trombocitopenia (redução de plaquetas).
- Enzimas hepáticas: frequentemente elevadas (aumento de transaminases)
- Ultrassonografia fetal: essencial para gestantes com suspeita ou confirmação de infecção por Zika
Um desafio significativo no diagnóstico sorológico do Zika é a reação cruzada com outros flavivírus, como dengue e febre amarela, o que pode gerar resultados falso-positivos. Por isso, a interpretação dos resultados deve ser cuidadosa e contextualizada com a situação clínica e epidemiológica.
Tratamento do Zika: Como controlar a infecção
Atualmente, não existe tratamento específico ou antiviral aprovado para eliminar o vírus Zika do organismo. A abordagem terapêutica concentra-se no alívio dos sintomas e no suporte clínico para prevenir complicações.
Medidas gerais de tratamento recomendadas:
- Repouso adequado
- Evitar atividades físicas intensas
- Garantir sono suficiente para recuperação do organismo
- Hidratação intensiva
- Aumentar a ingestão de líquidos (água, sucos naturais, água de coco)
- Monitorar sinais de desidratação, especialmente em crianças e idosos
- Medicamentos para alívio sintomático
- Analgésicos e antitérmicos: paracetamol ou dipirona para controle da febre e dor
- Anti-histamínicos: loratadina, cetirizina ou hidroxizina para reduzir prurido e manifestações cutâneas
- Colírios lubrificantes: para aliviar o desconforto ocular da conjuntivite
Medicamentos contraindicados:
- Anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, diclofenaco, ácido acetilsalicílico)
- Estes medicamentos devem ser evitados devido ao risco aumentado de complicações hemorrágicas, similar ao que ocorre na dengue
- Podem também aumentar o risco da Síndrome de Reye, especialmente em crianças
Acompanhamento médico:
O acompanhamento médico regular é fundamental, especialmente para:
- Gestantes infectadas pelo vírus Zika
- Pacientes com sintomas persistentes ou graves
- Pessoas com comorbidades ou sistema imunológico comprometido
- Casos com sinais de complicações neurológicas
Complicações do Zika: Consequências graves da infecção
Embora a maioria dos casos de Zika seja leve e autolimitada, a infecção pode ocasionar complicações graves, algumas com impacto permanente na saúde e qualidade de vida dos afetados.
1. Síndrome congênita do Zika
A complicação mais conhecida e preocupante do Zika é, sem dúvida, a Síndrome Congênita do Zika (SCZ), que ocorre quando gestantes são infectadas pelo vírus e este, consequentemente, atravessa a barreira placentária, afetando o desenvolvimento neurológico do feto.
Características da Síndrome Congênita do Zika:
- Microcefalia (perímetro cefálico reduzido)
- Calcificações cerebrais
- Alterações oculares (lesões na retina, atrofia do nervo óptico)
- Contraturas musculares congênitas (artrogripose)
- Hipertonia muscular precoce
- Irritabilidade
- Convulsões
- Dificuldades de alimentação
- Perda auditiva
O risco de desenvolvimento da SCZ é maior quando a infecção ocorre no primeiro trimestre da gestação, mas pode acontecer em qualquer fase gestacional. Estudos indicam que entre 5% e 15% das gestantes infectadas pelo Zika terão bebês com alguma manifestação da síndrome.
2. Síndrome de Guillain-Barré
A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma complicação neurológica pós-infecciosa, caracterizada por uma resposta autoimune que ataca o sistema nervoso periférico. Além disso, durante os surtos de Zika, observou-se um aumento significativo nos casos de SGB.
Sintomas da Síndrome de Guillain-Barré associada ao Zika:
- Formigamento e fraqueza que geralmente começam nas extremidades
- Progressão ascendente da paralisia (das pernas para os braços e face)
- Dificuldades respiratórias em casos graves
- Disfunção autonômica (alterações na pressão arterial e frequência cardíaca)
- Dor neuropática intensa
A SGB requer hospitalização imediata e pode necessitar de suporte em unidade de terapia intensiva, pois em casos graves pode comprometer a capacidade respiratória. O tratamento inclui plasmaférese ou imunoglobulina intravenosa para reduzir a resposta autoimune.
3. Complicações em pacientes imunocomprometidos
Além disso, pessoas com o sistema imunológico comprometido, como portadores de doenças autoimunes (lúpus, artrite reumatoide), HIV/AIDS ou em tratamento imunossupressor, podem desenvolver formas mais graves e prolongadas da infecção por Zika.
Há relatos de casos fatais em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico após infecção por Zika, embora a relação causal direta ainda esteja sendo investigada. A hipótese é que o vírus possa desencadear uma resposta imunológica exacerbada ou uma reativação grave da doença autoimune preexistente.
4. Outras complicações neurológicas
Além da SGB, outras complicações neurológicas associadas ao Zika incluem:
- Encefalite (inflamação do cérebro)
- Mielite transversa (inflamação da medula espinhal)
- Meningoencefalite (inflamação das meninges e do cérebro)
- Neuropatias periféricas
Prevenção do Zika: Estratégias eficazes contra o vírus

A prevenção continua sendo a melhor estratégia contra o Zika, especialmente devido à ausência de tratamento específico ou vacina aprovada. As medidas preventivas focam principalmente no controle do vetor e na proteção individual.
1. Controle do mosquito Aedes aegypti
Eliminação de criadouros:
- Remover água parada de vasos de plantas, pneus, garrafas e outros recipientes
- Manter caixas d’água, cisternas e outros reservatórios bem tampados
- Limpar regularmente calhas e ralos
- Tratar piscinas adequadamente com cloro
Controle químico:
- Uso de larvicidas em locais onde não é possível eliminar a água parada
- Aplicação de inseticidas residuais em áreas estratégicas
- Nebulização (fumacê) em situações de surto, seguindo orientações das autoridades sanitárias
2. Proteção individual contra picadas de mosquito
Uso de repelentes:
- Repelentes à base de DEET, Icaridina ou IR3535, aplicados conforme orientação do fabricante
- Repelentes naturais como citronela e óleo de eucalipto limão como medidas complementares
- Repelentes específicos para gestantes, aprovados pela ANVISA
Barreiras físicas:
- Uso de roupas que cubram a maior parte do corpo (calças e camisas de manga longa)
- Instalação de telas em janelas e portas
- Uso de mosquiteiros, especialmente para bebês e durante o sono
Ambientes protegidos:
- Manter ambientes limpos e organizados
- Usar ar-condicionado quando disponível (reduz a presença de mosquitos)
- Evitar áreas com alta concentração de mosquitos, especialmente no início da manhã e final da tarde
3. Prevenção da transmissão sexual
Adicionalmente, o vírus Zika pode permanecer no sêmen por períodos prolongados, com estudos indicando detecção viral por até 2,5 anos em alguns casos. Diante disso, as medidas preventivas incluem:
- Recomenda-se o uso de preservativos em todas as relações sexuais por pelo menos 3 meses após a infecção confirmada em homens.
- Além disso, a abstinência sexual durante esse período é a alternativa mais segura.
- Para homens que visitaram áreas com transmissão ativa de Zika e têm parceiras gestantes, recomenda-se o uso de preservativos durante toda a gestação.
4. Cuidados especiais para gestantes
Além disso, gestantes constituem um grupo de risco especial devido às possíveis complicações fetais:
- Evitar viagens para áreas com transmissão ativa de Zika
- Reforçar todas as medidas de proteção contra picadas de mosquito
- Portanto, é fundamental realizar o pré-natal completo, com monitoramento ultrassonográfico regular.
- Comunicar imediatamente ao obstetra qualquer sintoma suspeito de Zika
- Seguir rigorosamente as recomendações médicas específicas
Perguntas frequentes sobre Zika
Quanto tempo duram os sintomas do Zika?
Os sintomas do Zika geralmente duram entre 2 e 7 dias na maioria dos casos. A fase aguda raramente ultrapassa uma semana, mas o cansaço e as dores articulares podem persistir por semanas em alguns pacientes. Após a resolução dos sintomas, o vírus pode permanecer no organismo por períodos variáveis.
Como diferenciar Zika de dengue e chikungunya?
Embora sejam transmitidas pelo mesmo mosquito, estas arboviroses apresentam diferenças clínicas importantes:
| Característica | Zika | Dengue | Chikungunya |
|---|
| Febre | Baixa ou ausente | Alta (>38 °C) | Alta (>38 °C) |
| Manchas na pele | Precoces e proeminentes | Tardias | Variáveis |
| Conjuntivite | Comum, não purulenta | Rara | Ocasional |
| Dor articular | Moderada | Intensa | Muito intensa e prolongada |
| Edema articular | Frequente | Raro | Frequente |
| Duração típica | 2–7 dias | 7–10 dias | Semanas a meses |
Uma pessoa pode ter Zika mais de uma vez?
Sim, é possível ter Zika mais de uma vez. Após a infecção, o corpo desenvolve anticorpos que oferecem proteção, mas esta imunidade pode não ser permanente ou completa. Além disso, existem diferentes linhagens do vírus Zika, e a imunidade contra uma linhagem pode não proteger totalmente contra outras.
Existe vacina contra o Zika?
Atualmente, não há vacina aprovada para uso comercial contra o Zika. Várias vacinas estão em desenvolvimento e em diferentes fases de testes clínicos, mas nenhuma completou todos os estágios necessários para aprovação e distribuição em larga escala. A prevenção continua sendo a principal estratégia contra a doença.
O que fazer se suspeitar de Zika durante a gravidez?
Caso uma gestante suspeite de infecção por Zika, ela deve:
- Procurar atendimento médico imediatamente
- Informar sobre sintomas e possível exposição ao mosquito
- Realizar os exames diagnósticos recomendados
- Seguir com acompanhamento pré-natal intensificado
- Realizar ultrassonografias mais frequentes para monitorar o desenvolvimento fetal
Como é feito o diagnóstico de microcefalia relacionada ao Zika?
O diagnóstico é realizado através de:
- Além disso, a ultrassonografia obstétrica pode identificar perímetro cefálico reduzido.
- Ressonância magnética fetal em casos selecionados
- Confirmação após o nascimento com medição do perímetro cefálico
- Exames de neuroimagem (tomografia ou ressonância) do recém-nascido
- Testes para confirmar exposição materna ao vírus Zika durante a gestação
Conclusão: A importância da vigilância contínua contra o Zika
Atualmente, o vírus Zika continua representando um desafio significativo para a saúde pública global, especialmente devido ao seu potencial de causar malformações congênitas graves. Embora os grandes surtos tenham diminuído desde 2016, o vírus permanece em circulação em muitas regiões tropicais e subtropicais.
A prevenção eficaz do Zika depende, portanto, de uma abordagem integrada que combine esforços individuais, comunitários e governamentais. Nesse sentido, o controle do mosquito Aedes aegypti, a proteção individual contra picadas e a vigilância epidemiológica constante são pilares fundamentais dessa estratégia.
Para gestantes e mulheres em idade fértil que planejam engravidar, a prevenção ganha ainda mais importância, sobretudo devido às possíveis consequências devastadoras da infecção durante a gravidez. Por isso, o acompanhamento pré-natal adequado e a comunicação aberta com os profissionais de saúde tornam-se essenciais.
A pesquisa científica continua avançando na compreensão do vírus Zika, suas complicações e possíveis tratamentos. Enquanto aguardamos o desenvolvimento de vacinas e terapias específicas, a educação em saúde e as medidas preventivas permanecem como nossas ferramentas mais poderosas contra esta ameaça.